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domingo, 13 de novembro de 2011

PASSOS DO PASSADO

Quando a moça entrou no meu carro começou logo a falar do nome do outro motorista que a havia levado ao hospital no dia anterior. Contestava sobre o nome que eu dizia que não seria o mesmo que ela lembrava, porem, ela insistia apesar de titubear e considerar que talvez pudesse estar enganada, muito embora achasse que não.
De repente calou e logo ouvi que conversava com alguém. Mirei pelo retrovisor e concluí que falava ao telefone.
-... Então ele já chegou? – tá bem, em dez minutos tô chegando aí. Beijo

Desligou o celular e começou a falar sobre o dilema de sua amiga, que havia se internado para uma cirurgia, a qual, ela seria a instrumentadora. Era formada em Enfermagem, com pós-graduação e mestrado em cirurgia cardiológica. Tinha um pouco mais de 30 anos, mas em sua história de vida havia letras e frases em páginas tão pesadas quanto um terrível fardo  carregado em ombros vividos por vários séculos ou milênios. A sua figura era franzina, um rosto juvenil com contornos de uma maçã. A estatura era mediana e a voz quase suave não escondia a ânsia de uma loquacidade que parecia ser o único sintoma de desiquilíbrio entre sua mente e seu corpo disfarçadamente doentio.
- essa nossa profissão é muita desgastante... – concluiu abrindo a bolsa e guardando o celular.
 Fiz sinal com a cabeça que sim.
... Sinto não ter me dedicado tanto quanto queria. Tive oportunidades mil e cada uma melhor que a outra. Acredita você que ganhei tanto dinheiro que você nem imagina, mas tive um “santo” marido e, por causa dele... cadê todo o meu dinheiro? Perdi todo ele junto com as minhas duas únicas filhas.
Havia amargura nestas ultimas palavras, porem notei uma forte resignação em tudo que havia dito e resolvi ajuda-la no seu possível desabafo.

... Ainda bem que ele não sobreviveu á catástrofe, se não, não sei o que faria com ele diante de tanta traição. Embora eu tenha perdido duas filhas num acidente em que ele foi junto mas eu não sei como seria... o infeliz dizia que aplicava todo o meu dinheiro e eu não tinha tempo sequer de comprovar em quê e nem procurava saber pois os trabalhos eram tantos que ás vezes entrava pele manhã num hospital instrumentando uma cirurgia, daí passava prá outra que qdo dava por conta já era tarde da noite ou até madrugada do outro. E, assim, o tempo que me sobrava era muito pouco. Você entende bem como é isso né? A Enfermagem passa mais tempo num hospital á cuidar de um paciente do que o próprio médico... E, por essa minha ausência nas coisas da família, não das minhas filhas que até hoje, depois de 8 anos, me fazem muita falta e ainda me causam um vazio muito grande. Entretanto, ainda tento superar tudo isso com as forças que Deus me proporciona. Você imagina que o cretino do meu marido tinha outra família com mulher e filhos. Portanto, daí eu descobri, depois dele morto, que era aí que ia todo o meu dinheiro que ele investia... Hoje eu vivo aí numa luta contra uma doença imunodepressora que já me causou problemas maiores, inclusive depois de toda essa catastrófica fase em que lhe falei, pois eu queria e tinha que voltar a trabalhar, mas era impedida. Acredite que com apenas 27 anos já fui obrigada a parar de trabalhar sendo aposentada pelo governo que insiste em alegar que sou uma “incapacitada”. É mole?! Quando fiz minha ultima inspeção médica tentei burlar o médico no sentido de que estava apta a voltar as minhas atividades pois precisava de alguma forma superar a fase negativa e conturbada que vivia mas o infeliz descobriu as manchas em meu corpo que condenavam a minha triste sina de abrigar em meu sistema imunológico uma bactéria rara a qual, vez ou outra me leva a uma eventual internação hospitalar. O médico quando descobriu que eu tentava disfarçar com roupas pesadas, de mangas compridas em pleno verão, rapidamente escreveu no papel um monte de coisas que assim que li voei pra cima dele e ele pediu aos seguranças que me tirassem do consultório. Nesse dia fui levada á força para o manicômio e o psiquiatra, depois que expliquei o porquê de estar ali, disse: “olha eu já vi casos aqui de agressão á médicos por não concordarem com a aposentadoria, agora, por conceder aposentadoria e o paciente não aceitar é a primeira vez. Vá, aqui não é lugar pra essa moça!”- disse e me mandou embora. E assim eu tive e tenho que me contentar com essa aposentadoria...

   O telefone tocou dentro da bolsa no momento em que eu estacionava o carro em frente á entrada principal do Hospital. Ela não atendeu, preferiu descer, pediu meu cartão e pagou a corrida se despedindo em seguida. Quando se afastava do carro enfiou a mão na bolsa e apanhou novamente o celular e pude vê-la ainda gesticular com leveza enquanto falava com alguém e tive a certeza que era mesmo assim que superava suas dores e revelava em si uma desculpa maior para os sintomas de uma patologia silenciosa que ela sufocava com os seus próprios ruídos.

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